MISTÉRIOS DA FÉ
O ator Carlos Vereza no papel de Menezes (em
destaque). A biografia lança o “cinema
transcendental”
Quem acredita em milagres talvez atribua a um
deles o surpreendente sucesso de Bezerra de
Menezes – O Diário de um Espírito. O filme é
despretensioso. Padece de um roteiro capenga que faz
a história se arrastar. Produzido por uma entidade
beneficente do Ceará, recebeu um orçamento modesto
para os padrões atuais. Custou R$ 2 milhões, valor
recuperado em apenas um mês e meio. Até a
quinta-feira, o filme havia atraído 262.461
espectadores. É o novo fenômeno do cinema
brasileiro.
Até a estréia do filme, a vida de Bezerra de
Menezes permanecia desconhecida do grande público.
Na tela, a história do médico e político que viveu
no século XIX emociona a platéia às lágrimas. Qual é
a explicação? A empatia causada pelo filme pode não
estar naquilo que ele mostra, mas no tema que
aborda: o espiritismo. O Brasil é o maior país
espírita do mundo. São 20 milhões de adeptos,
segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). Adorado por seguidores do
espiritismo, Bezerra de Menezes é uma entidade a
quem são endereçadas orações e pedidos de cura. No
Orkut, há mais de mil comunidades que levam o nome
do “Médico dos Pobres”, como Bezerra ficou
conhecido. A maior delas conta com 33 mil
participantes.
Numa das cenas mais fortes do filme que conta sua
vida, Bezerra de Menezes, interpretado pelo ator
Carlos Vereza, afirma: “O materialismo não preenche
a existência”. Ainda que de forma menos articulada,
essa idéia ecoa em parte do público. “É bom assistir
a um filme sobre um homem que só fez o bem”, diz a
estudante carioca Giulianna Ciuffo, de 17 anos. De
família católica na origem, e hoje espírita, ela viu
o longa-metragem já na primeira semana, acompanhada
do namorado. “Ninguém agüenta mais ir ao cinema para
ver tiro, pobreza e tráfico”, afirma, numa clara
referência a filmes brasileiros recentes, como
Tropa de Elite, Meu Nome não É Johnny
e Linha de Passe.
MENSAGEM EDIFICANTE
Para a estudante Giulianna Ciuffo, de 17
anos, “é bom assistir a um filme sobre um
homem que só fez o bem”
A médica cearense Eliane Oliveira, de 53 anos,
compareceu à estréia de Bezerra de Menezes,
em Fortaleza. “Não importa se o filme é uma produção
simples”, diz. “As pessoas estão atrás de exemplos
como o de Bezerra”. Se a opinião dela estiver
correta, o personagem é mesmo exemplar. Menezes
conciliou a carreira de médico com a de político e
de empresário. Foi abolicionista e, numa escolha
pioneira para o momento em que viveu, ambientalista.
Nascido na antiga Freguesia do Riacho do Sangue,
hoje Solonópole, no Ceará, em 29 de agosto de 1831,
desde cedo teria demonstrado inteligência superior à
média. Aos 13 anos, seria tão bom em latim que já
substituía o professor na escola. Estimulado pelo
pai, integrante da Guarda Nacional, mudou-se para o
Rio de Janeiro, onde estudou Medicina. Doutorou-se
em 1856, defendendo a tese Diagnóstico do Cancro. No
ano seguinte, entrou para a Academia Imperial de
Medicina.
Quando já era um médico respeitado, Bezerra de
Menezes entrou para o Partido Liberal. Bom orador e
bem relacionado socialmente, elegeu-se vereador do
Rio de Janeiro em 1861. Esteve na política até 1880
e chegou a ser presidente da Câmara dos Vereadores,
o que nos tempos do Império equivalia ao cargo de
prefeito do município. Em seus discursos, pregava a
libertação dos escravos e a integração dos negros na
sociedade. O Ceará, Estado natal de Menezes, foi o
primeiro a libertá-los, em 25 de março de 1884,
quatro anos antes da Lei Áurea. A antecipação
cearense se deveu a um movimento inspirado por
Bezerra e liderado por seu sobrinho Antônio. Também
em suas falas oficiais e artigos há indícios de que
teria sido um dos precursores da ecologia no país.
Denunciou a devastação da Mata Atlântica e os gases
tóxicos despejados por uma fábrica de fumo. Apesar
de progressista, não há registro de que fosse
republicano. Na política, simpatizava com o
imperador dom Pedro II.
Abolicionista e pioneiro do ambientalismo,
Bezerra
acreditava que sem caridade não há salvação
Durante todo o período em que esteve na política,
Bezerra de Menezes não abandonou a medicina. Era
comum ser despertado de madrugada para atender
moradores de áreas carentes. Virou mito entre as
comunidades mais pobres da capital do Império mesmo
antes de sua conversão ao espiritismo, em 1886. Um
ano antes, ele havia lido um exemplar do Livro
dos Espíritos, a obra fundamental da religião,
escrita pelo pedagogo francês Allan Kardec
(1804-1869). Numa viagem de uma hora da Tijuca, onde
morava, ao centro, Bezerra leu boa parte do livro.
“Percebi que já tinha ouvido ou lido aquilo tudo.
Parece que eu era espírita consciente”, diria, num
artigo escrito anos depois. Sua conversão, perante 2
mil pessoas na sala de honra da Guarda Velha,
tradicional área de palestras da cidade, causou
espanto. Naquele tempo, se havia muita curiosidade,
havia muito mais preconceito em relação ao
espiritismo.
Seguindo a máxima da doutrina, segundo a qual
“sem a caridade não há salvação”, Bezerra
empenhou-se mais ainda no atendimento aos pobres – a
ponto de ele mesmo perder seu patrimônio. Trabalhou
pela unificação dos espíritas, espalhados em centros
e associações que pouco se comunicavam. Foi um dos
fundadores e o primeiro presidente da Federação
Espírita do Brasil (FEB). Chegou a ser chamado de “o
Kardec Brasileiro”. Usando o pseudônimo de Max,
publicou artigos em O Paiz, então o
principal jornal do Brasil. O senador Quintino
Bocaiúva, diretor do jornal, tornou-se seu amigo e
simpatizante do espiritismo.
Bezerra casou-se duas vezes. A primeira vez com
Maria Cândida, que morreu cedo, deixando-lhe dois
filhos pequenos. Logo depois, uniu-se à cunhada,
Cândida Augusta. Teve dez filhos e perdeu três deles
já quase adultos. Consta que houve fila de
visitantes em sua porta nos três meses em que ficou
sem se locomover ou falar, vítima de uma congestão
cerebral. Sabendo da situação financeira da família,
os devotos deixavam dinheiro embaixo de seu
travesseiro. O médico morreu pobre, em abril de
1900.
Os espíritas acreditam que Chico Xavier, um
símbolo da religião do século XX, psicografou
dezenas de mensagens de Bezerra de Menezes. “Ele
continua muito presente entre os espíritas e auxilia
nas cirurgias espirituais”, afirma Lídia Alba,
presidente do Centro Bezerra de Menezes, no Rio de
Janeiro. “Além do próprio Allan Kardec e de Chico
Xavier, ele é a referência máxima para nós”, diz
André Marinho, da Casa Espírita Maria de Nazaré.
ORAÇÃO
Cena em que ele pede ajuda aos espíritos
para curar a doença de um dos filhos
Levada ao cinema, a biografia de Bezerra de
Menezes se tornou o melhor exemplo de um filão que
começa a vencer o preconceito: o “cinema
transcendental”. Nome de um disco lançado por
Caetano Veloso na década de 1980, o conceito já
vinha sendo usado em uma mostra de teatro organizada
em Fortaleza pelo empresário Luiz Eduardo Girão, de
36 anos, fundador da ONG Estação da Luz. Espírita
desde 2001, há seis anos ele organiza a Mostra
Brasileira de Teatro Transcendental, que já reuniu
30 mil participantes e é o maior evento beneficente
do Estado. Disposto a chamar a atenção para a causa
humanitária, percebeu que poderia atingir mais
pessoas. “Escolhi Bezerra de Menezes por ser um
ícone espírita e cearense”, diz. Assim, o teatro
transcendental chegou ao cinema.
Embora não impressione, com seus 75 minutos de
cenas rodadas apenas em interiores, edição apressada
e narração monocórdia, Bezerra de Menezes
faz uma trajetória de êxito que inverte a lógica dos
filmes nacionais: o número de cinemas em que é
exibido só aumenta. Das 44 salas na primeira semana,
passou a 60 na segunda e a 64 agora. O boca a boca é
o maior responsável. Nos fóruns na internet, ao lado
de correntes de oração e convites para eventos
espíritas, há intensa propaganda voluntária do
filme. “Espíritas amigos, vamos lotar as salas de
cinema, vamos fazer a nossa parte”, escreve a
internauta Mara. “O sucesso do filme é prova da
força do espiritismo no país e ajuda a criar
interesse pela doutrina”, diz Cesar Perri, diretor
da FEB. Mas nem só espíritas têm enchido as salas de
cinema. Umbandista, o historiador José Henrique
Motta, de 47 anos, autor do livro Das Macumbas à
Umbanda, diz que o espiritismo é um dos pilares
das religiões afro-brasileiras. “É o que lhes dá o
tom científico”, afirma. Admirador de Bezerra de
Menezes, ele lamenta apenas que o filme seja curto
para mostrar mais detalhes da vida do médico, que se
multiplicou em funções e se dedicou aos carentes.

SINCRETISMO
O historiador e umbandista José Henrique
Motta diz que o espiritismo “dá o tom
científico” às religiões afro-brasileiras
Movido por sua fé, o empresário Luiz Eduardo
Girão conseguiu reunir recursos de empresas e
profissionais liberais simpatizantes do espiritismo.
Chamou dois profissionais da região para dirigir o
filme: Glauber Filho (que não é parente de Gláuber
Rocha), professor de Cinema da Universidade de
Fortaleza, e Joe Pimentel, com experiência na área
de filmes publicitários. Com orçamento restrito para
um filme de época, a equipe deu ênfase às cenas de
interior, com pouca ação, e tem elenco regional. “A
participação de atores famosos como Carlos Vereza,
Ana Rosa e Caio Blat teve remuneração simbólica e
afetiva”, diz Glauber Filho.
O diretor considera que as filmagens, todas
feitas em Fortaleza, no Recife e em municípios do
interior do Ceará, foram cercadas de acontecimentos
sobrenaturais. Segundo ele, chuvas torrenciais
cessaram para permitir as gravações. Muito doente,
um dos membros da equipe que não poderia trabalhar
teria se curado repentinamente. A produção encontrou
um cenário pronto, com móveis de época, num cartório
do interior. Ao saber que era para um filme sobre
Bezerra de Menezes, o dono do estabelecimento caiu
em prantos, para depois explicar: adolescente, havia
sofrido um acidente e o pai ficara na cabeceira de
sua cama pedindo ajuda ao espírito do médico. “No
dia seguinte, ele teria se levantado, já bem
melhor”, diz Glauber. O ator Carlos Vereza conta que
o médium baiano Divaldo Franco afirmou ter visto o
espírito de Bezerra a seu lado durante a projeção de
uma cópia preliminar do filme.
Na versão original, o filme misturava
documentário com dramaturgia. No ano passado, foi
apresentado num festival em Fortaleza e em outro em
Cartagena, na Colômbia. O retorno foi semelhante: os
espectadores gostaram mais da ficção que do
documentário. Segundo o público, os trechos com
depoimentos cortavam a emoção da história. Para
satisfazer o gosto do público, todo o figurino foi
alugado de novo e os atores convocados para mais um
mês de filmagens. Nove novas cenas foram filmadas e
acrescidas às já existentes – o que explica as
falhas de roteiro. “Foi um malabarismo para adaptar
o que já estava feito”, diz o produtor Girão. Já
100% ficcional, Bezerra de Menezes foi
abraçado pela distribuidora Fox. “Projetamos vida
longa ao filme, que abriu o tema espiritismo no
mercado nacional e promete ser o primeiro de uma
série com a mesma temática”, diz a diretora-geral da
Fox no Brasil, Patrícia Kamitsuji.

Coincidência ou não, outras obras do cinema
transcendental estão no forno. No começo de 2009,
será lançado o documentário As Cartas, da
diretora Cristiana Grumbach. A cineasta vai mostrar
as histórias de famílias que dizem ter tido
mensagens de familiares mortos psicografadas por
Chico Xavier. Em 2010, virão As Vidas de Chico
Xavier, uma superprodução adaptada do
best-seller homônimo de Marcel Souto Maior. O
produtor Bruno Wainer, da Downtown Filmes, comemora
o sucesso de Bezerra de Menezes como prova
de um filão de sucesso. “Estamos acompanhando esse
mercado com atenção”, diz. O longa-metragem será uma
parceria Sony-Downtown, a mesma de Meu Nome não
é Johnny. O roteiro é de Marcos Bernstein, de
Central do Brasil, e a direção de Daniel Filho. Para
o mesmo ano, fala-se no mercado que Breno Silveira
(diretor de 2 Filhos de Francisco) vai
filmar uma produção adaptada do livro Ninguém É
de Ninguém, de Zibia Gasparetto – autora
recordista em livros espíritas no Brasil, com mais
de 5 milhões de exemplares vendidos. Os direitos do
livro Nosso Lar, obra apreciada entre os
espíritas, também foram negociados pela FEB para
virar filme, pelas mãos do diretor Renato Prieto.
Escrito por Chico Xavier, supostamente psicografado
pelo espírito André Luiz, o livro retrata um mundo
pós-morte. Já vendeu mais de 1,5 milhão de
exemplares.
O sucesso do tema religioso – e não só espírita –
no Brasil já foi medido pelo produtor Diler
Trindade. Em 2002, ele levou 2,7 milhões de
espectadores aos cinemas para ver Maria, Mãe do
Filho de Deus, uma história narrada pelo Padre
Marcelo. O longa vendeu ainda 300 mil cópias em DVD
– mais que o primeiro Homem-Aranha, lançado
no mesmo período. “O Brasil é um país de místicos.
Filmes com esse apelo podem arrastar multidões aos
cinemas”, diz Trindade, que em 2010 lançará um filme
sobre a vida de Jó, sábio do Antigo Testamento. “Vou
agradar a católicos, evangélicos e judeus”, afirma.
LIÇÕES
Médica e cearense como Bezerra de Menezes,
Eliane Oliveira diz que “as pessoas estão
atrás de exemplos como o dele”
Nos Estados Unidos, a cultura transcendental
conquistou espaço no cinema e na TV. Além do sucesso
recorrente de produções inspiradas em passagens da
Bíblia, foram campeões de bilheteria os
filmes Ghost (1990), Sexto Sentido
(1999) e Os Outros (2001). Na série de TV
Medium, a personagem central psicografa
mensagens que ajudam a desvendar crimes. O potencial
é tão grande que a 20th Century Fox criou, em
Hollywood, uma divisão intitulada Fox Faith, para
co-produzir e distribuir filmes de temática
espiritual. No Brasil, novelas como Alma Gêmea
(2005) e O Profeta (2006) tiveram boas
audiências. Em Três Irmãs, que vai ao ar
atualmente pela TV Globo na faixa das 19 horas, um
dos personagens, vivido por José Wilker, é um
espírito que dialoga com sua viúva. O cinema
brasileiro, porém, não costumava incorrer no tema,
que foi inaugurado com pompa por Bezerra de
Menezes – sem considerar o espírito de Vadinho,
vivido pelo mesmo José Wilker no cinema na obra
Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado.
“Por esperar uma existência após a morte, a
sociedade brasileira é espírita”, diz Roberto
DaMatta
Para o antropólogo Roberto DaMatta, o filão tende
a crescer por dois motivos: o primeiro é a
necessidade que o espectador brasileiro tem de ver
histórias positivas, de glorificação. Segundo ele, o
cinema brasileiro, autoral, cujos grandes diretores
são intelectualizados, “puxa o tapete do espectador”
com a ênfase em pobreza, violência e drogas. “É
importante pensar o mundo. Mas fica a carência de
algo que encha o coração num momento em que faltam
ética e solidariedade”, afirma. O outro motivo é a
dimensão espírita presente em toda família. “A
sociedade brasileira é espírita a partir do momento
em que espera uma existência além da morte”. Para os
kardecistas, a doutrina de Allan Kardec suaviza o
drama da morte e ainda traz respostas para os
acontecimentos da vida – com uma roupagem lógica,
sem sacerdotes ou obrigações. O que se faz nesta
vida, de bom ou de ruim, leva-se para outra vida,
num auto-ajuste de contas que pode levar à
eternidade. Ou, no mínimo, a um cinema próximo.