O mineiro Chico Xavier foi
fundamental para a difusão
do espiritismo pela via
literária - foram 418 obras
psicografadas - e pelo
atendimento mediúnico
Por
JONAS FURTADO E LENA
CASTELLÓN Colaborou Rodrigo
Cardoso
Faz
cinco anos que Chico Xavier
morreu. Estava com 92 anos e
faleceu em um domingo, horas
depois de o Brasil ter
conquistado a Copa do Mundo
do Japão. Em meio à festa
pelo título, o País rendeu
tributo ao seu mais famoso
médium. Entre as 100 mil
pessoas que compareceram ao
velório, estavam
personalidades da tevê, da
música e da política. Até
hoje nen
hum nome do espiritismo
alcançou o mesmo status do
atingido por Francisco
Cândido Xavier. Nem poderia.
Os líderes da religião são
unânimes em afirmar: ele é
insubstituível. Apesar
disso, um médium de
Brasília, Ariston Teles, diz
incorporá- lo, algo
contestado por um grupo de
pessoas próximas a Chico
Xavier, entre elas seu filho
adotivo, Eurípedes dos Reis.
Alegam não ter encontrado em
Teles o conjunto de sinais
secretos que o médium
mineiro teria transmitido
para que um dia pudesse ser
reconhecido no pós-morte.
A polêmica não causa
arranhões à doutrina. O que
se poderia imaginar é que a
religião sofreria um baque
sem a presença de seu maior
ícone. Mas não é isso que se
vê. O espiritismo está
ganhando seguidores. A
Federação Espírita
Brasileira (FEB) lembra que
o último censo do IBGE, de
2000, apontava 2,3 milhões
de seguidores da religião.
Para a entidade, atualmente
o grupo ultrapassa os três
milhões. Isso entre os que
se declaram espíritas.
Quando se trata de
simpatizantes, o número é
dez vezes maior. São 30
milhões de homens e mulheres
que buscam os centros
espíritas. "Muitas pessoas
vão atrás de cartas
espirituais, mesmo sem se
converter. E procuram as
casas mais de uma vez,
criando um sistema de
comunicação regular", conta
a antropóloga Sandra Stoll,
professora da Universidade
Federal do Paraná e autora
do livro Espiritismo à
brasileira.
De acordo com Sandra, Chico
Xavier foi fundamental para
a difusão do espiritismo
pela via literária – foram
418 obras psicografadas – e
pelo atendimento mediúnico,
que foi mostrado pela tevê
nos anos 70, transformando-o
em um fenômeno de
popularidade. Além disso,
ele conquistou o respeito de
praticantes de outras
religiões, como os católicos.
Ter atingido tal patamar de
aceitação contribuiu para
chamar a atenção para as
manifestações espirituais e
para os princípios da
doutrina. Esse poder
permanece vivo. "Possuímos
os direitos de publicação
dos clássicos de Chico
Xavier. Tem surgido um
grande interesse por esses
livros", diz César Perri,
diretor da FEB.
Antes esses livros estavam
restritos às livrarias
espíritas, porém não é mais
assim. Eles estão
disponíveis em balcões
comuns, com acesso a todos
que queiram saber mais sobre
o médium ou sobre a religião.
E nessa área, a literária, a
doutrina vai muito bem. "De
cinco anos para cá houve um
crescimento grande de
publicações espíritas.
Diferentemente do mercado
tradicional, que lança
livros com tiragem inicial
de três mil exemplares, os
espíritas já saem com no
mínimo cinco mil", afirma
Júlio César da Cruz, diretor
da distribuidora Catavento.
Nesse setor, Chico Xavier é
hors concours, mas pode ser
considerado pop em outros
campos. No ano passado,
saíram em DVD suas famosas
entrevistas ao programa
Pinga-fogo, da extinta Tupi.
As cenas já invadiram o
YouTube. Recentemente, a
atriz Glória Pires declarou
ser simpatizante do
espiritismo – além de devota
de Nossa Senhora –,
revelando que tem mensagens
do médium em seu iPod. E, em
2008, a vida de Chico Xavier
será retratada em filme
dirigido por Daniel Filho.


HERDEIROS Divaldo
Franco é hoje o mais famoso
espírita; Eurípedes , filho de
Chico, cuida do legado do pai; o
médium Raul Teixeira percorreu
40 países .
NOVOS LÍDERES
Tudo isso mostra que Chico
Xavier ainda é um forte
referencial no espiritismo.
Os dirigentes espíritas
chegam a qualificá-lo como
um divisor de águas. "Não é
sem razão que afirmamos
existir um movimento
espírita antes e depois
dele", salienta Marlene
Nobre, presidente da
Associação Médica Espírita,
uma das lideranças da
doutrina no Brasil. A
entidade defende que a
medicina deve cuidar também
do espírito. Por sinal, o
que se nota no processo de
expansão da doutrina é que
as pessoas têm procurado os
centros pela cura espiritual
ou porque desejam respostas
para os conflitos dos dias
atuais. Isso não quer dizer
que a mediunidade tenha
perdido seu atrativo – ainda
há intensa procura pelo
contato com o além. Mas as
necessidades cotidianas,
segundo os espíritas, levam
muita gente a se aprofundar
em seus preceitos. "Ante a
situação atual, o povo
procura mais a
espiritualidade. Há muita
insegurança, morte e
frustração e as pessoas
precisam de respaldo", diz o
médium Raul Teixeira, do Rio
de Janeiro. Com 40 anos de
pregação, Teixeira é hoje um
dos nomes mais respeitados
no espiritismo. Ele
percorreu mais de 40 países
fazendo conferências com
ensinamentos da religião.
"Prego quase todos os dias.
Quando não viajo, tenho
atividades na Sociedade
Espírita Fraternidade e no
Remanso Fraterno, obra
social que atende 300
crianças", explica.
As conferências se tornaram
uma importante ferramenta da
expansão espírita. O médium
baiano Divaldo Franco, 80
anos, cerca de 200 livros
publicados, é o mais notório
representante vivo da
religião no mundo. De
janeiro a agosto, ele esteve
em 128 palestras, sem contar
Salvador, onde vive. Já foi
à Índia, China e Turquia. "Em
um ano, fico fora cerca de
220 dias." Apenas uma vez
fez sua apresentação em
inglês, idioma que não
domina. Franco tem auxílio
espiritual nas palestras.
Suas palavras oferecem
conforto e explicações para
o caos do mundo. "Estamos em
um momento no qual espíritos
muito primitivos estão
reencarnando", diz. Essas
presenças, marcadas pela
violência, nos chocam, mas,
segundo ele, esta é a chance
para que eles possam evoluir.
Para ajudar este período a
passar, é preciso recorrer
ao caminho da educação e ao
combate à miséria. "Mas esta
fase de primarismo é
transitória", avisa. É o que
desejam todos, espíritas ou
não.
.
Obras do Mestre
Seguem em Uberaba
Faltam cinco minutos para as
18h quando os 15 voluntários
ocupam, um a um, os bancos
paralelos à extensa mesa
azul. Voz baixa e semblante
franzido, Eurípedes Higino
dos Reis, filho adotivo de
Francisco Cândido Xavier,
puxa o Pai nosso – é seguido
em coro por aqueles que
ajudam a preparar e servir o
jantar. Do lado de fora do
refeitório, 300 pessoas
aguardam o momento em que
serão autorizadas a entrar e
ocupar seus lugares. A
algazarra das crianças, um
terço dos presentes e com
prioridade na entrada (80
pessoas são servidas por vez),
contrasta com o olhar
faminto dos mais velhos. Os
primeiros chegaram pouco
antes das 14h e formaram a
fila debaixo de sol e
temperatura próxima dos 30
graus. Às 19h30, quando os
portões forem fechados, os
termômetros marcarão dez
graus a menos e quase 500
pratos terão sido
distribuídos. "Chico Xavier
foi a própria personificação
da fome zero, não por
questões políticas ou para
angariar votos, mas pelo
coração", diz Eurípedes, 57
anos. "Como ser humano,
Chico estava muito além do
médium."
Cinco anos depois da morte
do maior líder espírita do
País, os trabalhos sociais
iniciados por ele são
levados adiante em Uberaba
(MG) pelos amigos e
seguidores mais próximos em
vida. Como no título de uma
de suas mais famosas obras
infantis, O espetáculo
continua. "Antes de partir,
ele pediu para que não
deixássemos as obras pararem",
conta Kátia Maria, 43 anos,
criada por Chico e nos
braços de quem o médium
faleceu no início da noite
de 30 de junho de 2002. A
refeição semanal, que
começou com uma modesta e
disputada sopa e há 13 anos
virou um verdadeiro jantar,
no qual são consumidos 50
quilos de arroz, é oferecida
todas as quintas-feiras no
novo refeitório, ampliado e
reinaugurado há dois anos.
Os adultos ainda levam para
casa dois litros de leite e
um sanduíche de presunto; as
crianças ganham doces e um
pão de rosca. A cada 15 dias,
aos sábados, uma média de
500 cestas básicas, que
incluem um frango e leite,
são distribuídas. Grávidas
no final da gestação recebem
enxoval gratuitamente. Há
também assistência médica e
odontológica em consultórios
montados dentro do centro.
Responsável pelo Grupo
Espírita da Prece de Chico
Xavier, Eurípedes diz que
todo o trabalho é financiado
por doações, a grande
maioria delas feita pelo
grupo gaúcho Vipal. O
presidente das empresas,
Arlindo Paludo, decidiu
começar com as colaborações
regulares dois meses após a
morte do médium. "Arlindo
disse que Chico pediu a
ajuda dele em um sonho." Os
principais beneficiados são
os moradores dos bairros
mais pobres da região.
Voluntário desde a primeira
sopa servida por Chico
Xavier, Pedro Garcia afirma
que "90% das pessoas que
aparecem para jantar são
sempre as mesmas, todas as
quintas-feiras". Gente como
a dona-de-casa Rita de
Cássia Rodrigues de Paula,
37 anos, freqüentadora do
refeitório há 18. Levada
pela primeira vez por uma
irmã mais velha, ela agora
tem como companhia os filhos
Meire, 17, Marília, 13, e
Mairon, 3. Os três vão aos
jantares desde que eram
bebês de colo. "Na época da
sopa vinha até mais gente,
mas agora tem mais comida",
diz Rita, ao saber – e
aprovar – o cardápio do dia:
arroz, feijão, salada de
repolho com cenoura e tomate
e mandioca com carne.
Ao contrário dos fiéis
carentes, as celebridades
sumiram de Uberaba. Se no
auge da popularidade de
Chico Xavier a cidade
recebia regularmente
artistas como os cantores
Roberto Carlos e Fabio Jr. e
o apresentador Gugu Liberato
– até o ex-presidente
Fernando Collor de Mello fez
duas visitas, acompanhado de
sua então esposa, Rosane –,
desde a morte do médium
nenhum deles aparece por lá.
A antiga residência, onde
funciona também uma livraria
espírita, foi transformada
em museu, que guarda
relíquias como a coleção de
boinas, acessório
indispensável para Chico.
Aos sábados, na sede do
Grupo Espírita da Prece,
acontecem os trabalhos de
passe, oração e estudos da
doutrina. Não há mais
sessões de psicografia, e o
movimento de pessoas vindas
de outros Estados e países
diminuiu consideravelmente.
O médium atendia 1.500
pessoas por final de semana;
hoje, no máximo, 500 fiéis
freqüentam o centro. Para os
moradores da cidade, porém,
a imagem de seu mais ilustre
morador continua forte como
nunca. Como define a melhor
amiga, Kátia Maria: "Para a
gente daqui, Chico é um pai.
Uma fé. Um amor."
O código XAVIER
Chico combinou com três
pessoas sinais secretos para
que suas mensagens pósmorte
fossem reconhecidas. Em
Brasília, um médium garante
incorporá-lo.
Chico Xavier sempre motivou
polêmicas proporcionais ao
tamanho do mito criado por
suas obras espirituais,
literárias e sociais. Em
vida, alguns seguidores
discutiam fervorosamente se
ele era a reencarnação de
Allan Kardec (fundador da
doutrina espírita). O
próprio Chico nunca proferiu
uma palavra sobre o assunto.
Com sua morte, surgiu a
expectativa de ele passar a
enviar mensagens. Há quem
acredite que Chico já esteja
se comunicando, mas também
existem aqueles que rechaçam
a idéia. O debate é
acalorado porque antes de
morrer Chico teria deixado
um código para ser
reconhecido por três das
pessoas mais próximas a ele:
o filho adotivo, Eurípedes
Higino dos Reis, a melhor
amiga, Kátia Maria, e seu
médico, Eurípedes Tahan
Vieira. Com base nesses
sinais secretos, apenas o
trio poderia confirmar
quando a espera por um
contato do médium chegaria
ao fim.
O conteúdo do código é
mantido em sigilo absoluto
para afastar aproveitadores.
"Cada um tem o seu código.
Eu não sei o deles, eles não
sabem o meu", afirma Kátia
Maria, revelando apenas que
reconheceria o espírito do
médium por palavras
précombinadas em meio a
mensagens. Eurípedes dos
Reis acertou com o pai o que
e como ele falaria para não
deixar dúvidas de seu
retorno. Já o médico
Eurípedes Vieira sugere que
o sinal que lhe cabe está
relacionado à postura de
quem receber o contato. "Você
identifica as pessoas pelas
atitudes. Como médico dele,
sabia muito mais do que os
outros."
Pois há cinco anos o
aparecimento de um espírito
que se identifica como Chico
Xavier vem ocorrendo em
Brasília. A primeira
comunicação teria acontecido
três meses após sua morte.
Diante de seis médiuns do
centro espírita Monte
Alverne, o médium Ariston
Teles teria incorporado
Chico Xavier, pedindo preces
em favor dos amigos de
Uberaba. Chorou quando falou
do filho adotivo. A partir
de então, o espírito passou
a retornar com espaços
variados de até dois meses.
Teles nunca psicografou o
religioso mineiro.
Geralmente, ele fala de
cinco a dez minutos. São
preces, mensagens de
conforto espiritual ou
notícias para conhecidos. O
centro espírita já editou um
livro de 94 páginas,
Notícias de Chico Xavier,
com 18 mensagens e uma hora
de CD com a voz do espírito
incorporado.
Aos 58 anos, Teles é
funcionário administrativo
da Câmara dos Deputados.
Desde 1975 trabalha sua
mediunidade psicofônica (quando
o espírito fala através do
médium). Ele conheceu Chico
Xavier em 1980, em Uberaba.
Freqüentou o grupo por dois
anos. Então fundou seu
centro espírita, o Monte
Alverne, que atende em média
1,2 mil pessoas por semana,
em passes, palestras e sopão.
A última vez que Teles viu o
médium foi em 1999. Nessa
ocasião, ele teria lhe
passado um código para
reconhecê-lo em psicofonia.
"Eu me pergunto por que
Chico não buscou alguém mais
evoluído, mais maduro e mais
respeitado", diz.
Eurípedes dos Reis garante
que seu pai nunca mencionou
um código para a psicofonia.
Nesses cinco anos, ele
recebeu mais de 200
mensagens de gente que teria
se comunicado com Chico
Xavier. "Respeito todas.
Infelizmente, não reconheci
meu pai em nenhuma." Kátia e
o médico Eurípedes Vieira
também dizem não ter
identificado os sinais
combinados. "Até agora, nada
me chamou a atenção",
comenta Vieira.
Amigo de Chico Xavier por
quase meio século, o médico
Elias Barbosa faz parte do
grupo que acredita que ele
está se comunicando. Embora
não tenha se encontrado com
Ariston Teles, acha que pode
ser real a incorporação. "Já
recebi duas mensagens de
Chico, de pessoas diferentes,
que diziam para que eu
continuasse minha tarefa na
literatura espírita", diz. "Reconheci
Chico pela superioridade
moral presente nas palavras."
Para o médium baiano Divaldo
Franco, um dos maiores nomes
do espiritismo, Chico Xavier
deve voltar. Mas tem
reservas quanto às notícias
de que ele já retornou. "Incorporar
Chico daria um certo status
à pessoa. Por isso, é
preciso cautela", pondera.
Ele ainda não viu nenhuma
mensagem que se equiparasse
ao nível espiritual do
médium mineiro. Entre as
alardeadas, ao menos. "Tenho
a sensação de que Chico já
voltou, só que de modo
discreto, como foi em vida",
resume.