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SUPERAÇÃO As
cartas ajudaram Jakson e Rosário
a tocar a vida
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Os resíduos brancos do sal marinho ainda
estavam nos cabelos longos, lisos e escuros
de Jeison quando sua mãe, a dentista Maria
do Rosário Sosa, 58 anos, encontrou seu
corpo. Filho único, o rapaz morreu afogado
aos 15 anos, enquanto surfava na praia
gaúcha de Capão da Canoa, em 1993. "Era como
se tivéssemos morrido juntos. Passei um ano
chorando", diz Rosário. Na tentativa de
digerir o sofrimento intenso, ela e o marido,
Jakson, 57 anos, deixaram Porto Alegre, onde
moravam, para recomeçar a vida em São Paulo.
Na capital paulista, por meio de familiares,
conheceram o espiritismo. Quem visitou
primeiro um centro foi Jakson. Ao contar sua
perda, uma das voluntárias do lugar disse a
ele que o espírito de um rapaz, com as
mesmas descrições da história de seu filho,
já deixara uma mensagem a um médium. "Eu sou
um surfista que partiu nos mares do Rio
Grande do Sul", teria dito. Dali em diante,
detalhes como "a prancha amarela com adesivo
de guitarra" batiam com o caso de Jeison.
Sem conhecer nada da doutrina, o empresário
ficou em choque. Semanas depois, junto com a
esposa (eram católicos não-praticantes),
passou a frequentar a casa e receber cartas
de Jeison - que hoje somam mais de 100. "A
prancha na qual parti retorno no mesmo
embalo trazendo comigo os beijos que lhe dou
com um estalo", dizia uma das primeiras
mensagens do jovem. "Ele sempre repetia 'mãe,
um beijo com um estalo para você'", lembra
Rosário, emocionada.
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A perda de uma pessoa amada é uma das
maiores tristezas que alguém pode viver.
Rosário e Jakson só retornaram à alegria
quando passaram a ter convicção de que o
filho está bem, presente como sempre, e que,
como depois de uma longa viagem, será
possível reencontrá-lo. E, segundo o casal,
quem garante tudo isso é ele mesmo, por meio
de uma carta. Essa paz era o que faltava
para se reerguerem e buscarem ser pessoas
melhores a cada dia como gratidão pela
bênção de ter notícias do rapaz. A
psicografia tem esse poder. Para muitos, o
fenômeno em que médiuns transcreveriam
mensagens enviadas por espíritos (leia
quadro) prova que a vida não acaba com a
morte física. Numa nação em que 20 milhões
se consideram simpatizantes do espiritismo e
2,3 milhões declaram seguir a doutrina
fundada pelo francês Allan Kardec, as
mensagens psicografadas chegam às mãos de
milhares de crentes - ou não - todos os dias
nos 12 mil centros espalhados pelo País,
segundo dados da Federação Espírita
Brasileira.
Mensagens psicografadas já serviram até
como prova em processos judiciais. O caso
mais recente aconteceu em Viamão, no Rio
Grande do Sul, em 2006. Iara Barcelos,
acusada pelo assassinato do amante, Ercy
Cardoso, foi absolvida pelo júri depois que
a defesa apresentou uma carta psicografada
por um médium que teria sido enviada pelo
espírito de Ercy. Iara não quis falar sobre
o caso. O advogado dela, Lúcio de
Constantino, disse que a carta foi uma prova
relativa, que "somada às outras firma o
contexto probatório". Valter da Ros a
Borges, exprocurador de Justiça em
Pernambuco (e um dos pioneiros no Brasil da
parapsicologia, estudo dos fenômenos
incomuns da mente humana), diz ser possível
aceitar a carta psicografada como prova com
base no Artigo 332 do Código Civil: "Todos
os meios legais, bem como os moralmente
legítimos, ainda que não especificados neste
Código, são hábeis para provar a verdade dos
fatos." E no Artigo 157: "O juiz formará sua
convicção pela livre apreciação da prova."
Mas o especialista alerta que uma
psicografia só pode ser válida em um
processo "se reforçar outras provas ou
trouxer um fato novo."
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No Brasil, há outros três casos de
homicídio em que a decisão judicial se
fundamentou em comunicações mediúnicas
psicografadas por Chico Xavier. Foram
absolvidos José Divino Gomes, em Goiás, em
1976; José Francisco Marcondes de Deus, em
Mato Grosso do Sul, em 1980; e Aparecido
Andrade Branco, no Paraná, em 1982. Durante
13 anos, entre as décadas de 70 e 80, o
criminólogo Carlos Augusto Perandréa
pesquisou mensagens psicografadas por meio
da grafoscopia, técnica que estuda a grafia
usada em perícias, na avaliação de
assinaturas de bancos e no Judiciário. O
resultado indicou que as assinaturas nos
textos psicografados eram idênticas a das
pessoas que morreram. A parapsicóloga
forense americana Sally Headding, que se
tornou conhecida do público pelo programa
Investigadores psíquicos, do canal a cabo
Discovery Channel, afirmou à ISTOÉ que é
preciso cuidado ao buscar soluções na
psicografia. "Charlatões que anunciam ter
dons especiais e usam isso para manipular
pessoas sensibilizadas estão espalhados por
todo lugar", diz ela.
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A literatura psicografada também é um
fenômeno - de vendas. O segmento de livros
espíritas é um dos que mais crescem
anualmente na área editorial. De acordo com
a Associação das Editoras, Distribuidoras e
Divulgadoras do Livro Espírita (Adeler), em
2008 o aumento registrado foi de 15%, com
dez milhões de exemplares vendidos e mais de
dez mil títulos. As obras campeãs foram
Nosso lar, de Chico Xavier, Vencendo o
passado e Onde está Tereza, ambas de Zibia
Gasparetto. Com os livros a psicografia
ganhou visibilidade. Chico se tornou
referência a partir da década de 70, tanto
com as cartas psicografadas que redigia em
Uberaba, Minas Gerais, para pessoas de todas
as religiões e cantos do Brasil que faziam
fila na porta de sua casa, quanto com a
literatura espírita. Já os livros de Zibia,
com um marketing eficiente, se tornaram
presença garantida na lista dos mais
vendidos de temas em geral.
A crença nas mensagens do além se
fortalece pela riqueza de detalhes sobre a
convivência da pessoa com seus familiares ou
sobre o momento da morte, revelações,
afirmam os envolvidos, que o médium não
teria como saber se alguém não lhe contasse.
Uma carta psicografada foi a única coisa que
trouxe a empresária paulistana Ivani Tereza
Cury, 60 anos, de volta à vida.
Em 1989, seu filho Emerson, 17 anos,
levou um tiro quando estava num carro com
amigos. Cansado de estudar, quis sair um
pouco para espairecer um dia antes do
vestibular para engenharia.
O motorista do carro ao lado do que
estava Emerson não gostou de pedir passagem
e não ser atendido. No semáforo, desceu do
carro e atirou aleatoriamente no veículo. O
rapaz permaneceu cinco dias em coma, até
morrer. "Fiquei revoltada. É uma dor tão
forte", lembra Ivani.
Amigos lhe deram livros de Chico Xavier e
a levaram para assistir a palestras sobre
espiritismo. Até que, meses depois, recebeu
o primeiro recado do filho. "Em outras vidas
fui ruim e tive que passar por isso", dizia
a mensagem. No espiritismo, acreditase que
pagamos hoje por erros de vidas passadas.
"Foi difícil aceitar. Mas, quando
Emerson passou a dar detalhes de
acontecimentos da nossa família, não tive
mais dúvida", diz. A primeira vez
que Ivani teve certeza foi numa manhã na
qual, sentindo uma mistura de saudade e
raiva, começou a gritar no quarto dizendo
que Deus ficara de braços cruzados
permitindo a morte de seu filho. De tarde,
ao chegar ao centro espírita, havia uma
mensagem para ela: "Mãe, Deus não estava de
braços cruzados", dizia.
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MEU AMOR,
CUIDE DE NOSSAS PÉROLAS A
autoconfiança que a mulher,
Suzana,
teve em vida o catarinense
Edson
Coelho Gaspar -
espírita há 20 anos - reconhece nas
palavras das mensagens que o
espírito dela envia por meio da
psicografia. Morta em setembro após
um atropelamento, aos 44 anos,
Suzana procura confortar o marido
nas cartas, indicando que o tempo
diminuirá a dor e que as filhas de
10 e 7 anos precisam dele. Ela
enviou um acróstico (texto em que a
primeira letra de cada frase forma
uma palavra), hábito que tinha desde
a adolescência, com as iniciais do
nome do marido. É a carta a seguir.
A primeira parte indica que a mãe de
Edson, também já falecida, estava
perto de Suzana. "Ermínia chega e
abraça / Dson (seu filho adorado). /
Somos duas que dizemos / o quanto o
temos amado. / Nunca te
abandonaremos. /Como tudo está
difícil / o importante é seguir. /
Então, meu amor, prossegue. / Lutas,
conquistas por vir. / Humildade e
alegria./ O mais virá no porvir. /
Gostar é pouco pra nós. / Amor é que
nos enlaça. / Sabes que sempre
estarei / para o que der e vier.
/Amor, as nossas princesas / risos e
amor." |
Depois disso, Ivani deixou de ser uma
católica não-praticante e mergulhou no
espiritismo. Hoje, ela também acredita que
Emerson interveio no sequestro relâmpago da
irmã Roberta Cury, 35 anos, em 2003. No
carro com o filho de três anos, ela chorava
pedindo ao sequestrador que não lhe fizesse
nada, pois sua mãe já perdera um filho e não
aguentaria novamente essa dor. "De repente,
ele parou o carro e disse que, pelo meu
irmão que estava no céu, me deixaria ir
embora sem levar nada", conta Roberta. Em 25
de novembro de 2008, o espírito de Emerson
mostrou à família como agiu: "Peço licença
para a aventura-desventura da Roberta no
sequestro relâmpago (...) dando uma de anjo
da guarda para a mana", dizia a mensagem.
A psicografia alcançou tamanha
popularidade graças às respostas que dá,
mesmo subjetivas, devolvendo esperanças a
quem perdeu uma pessoa querida. A reportagem
de ISTOÉ presenciou uma sessão, em São
Paulo, conduzida por Marilusa Moreira
Vasconcellos, uma das médiuns de psicografia
mais respeitadas no espiritismo. Enquanto
ela recebia as mensagens em uma sala fechada
(há também demonstrações em público, mas
depende do dia e do lugar), 13 pessoas
participavam de uma palestra sobre a
doutrina e oravam. Elas aguardavam o contato
de filhos, esposas, mães que partiram.
Cerca de uma hora e meia depois, Marilusa
retornou, chamando as pessoas pelo nome. Não
há como não se emocionar. Valquiria (ela não
quis revelar o nome todo) tremia e chorava
ao ler as palavras que teriam sido ditadas
pelo espírito do marido, Jocimar, morto seis
meses atrás. "Te amo mais do que demonstrei",
foi a frase apontada na carta por Valquiria,
que teve de ser amparada por uma amiga para
ir embora. Rosana Elias sorria e enxugava as
lágrimas, enquanto lia a carta da mãe, morta
há dois anos, após uma cirurgia no coração.
"Ela era minha grande companheira. É difícil,
mas as cartas ajudam", conta Rosana. Desde o
falecimento da mãe, ela corre centros
espíritas na busca de mais um contato. Para
Rosimeire Galiazzi, saber que a filha
Bianca, morta aos 17 anos de meningite, está
bem em outro lugar "alivia a saudade".
Para especialistas, a verdade da
psicografia é baseada na fé. "A pessoa está
sensível e baixa a guarda quando recebe uma
mensagem dessas. A credibilidade de quem
envia também é fundamental", afirma o
psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira,
professor da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP). "Mas não
entro no mérito se existe ou não.
O que importa é quem recebe a mensagem
acreditar para se sentir confortado."
Na opinião do pesquisador Valter da
Rosa Borges, a psicografia é uma
manifestação psíquica que acontece por
telepatia, cujo conteúdo se origina do
inconsciente da outra pessoa, o qual o
médium seria capaz de alcançar. "Procedimentos
psicoterapêuticos convencionais podem
resgatar a pessoa da dor. A fé, porém,
fornece segurança e sentido existencial",
diz Borges.
Quem perde um ente querido e o reencontra
por intermédio de mensagens, costuma passar
por intensas transformações. "A certeza da
sobrevivência após a morte mobiliza as
pessoas a algum tipo de mudança, levando a
uma atuação diferente ou à maior amplitude
de visão do mundo", afirma a médium Marilusa.
"Daí a nascerem obras assistenciais é
imediato." Ivani, mãe de Emerson, diz que o
egoísmo de se preocupar apenas com os
problemas dela deu lugar à generosidade e,
hoje, ela se dedica ao trabalho voluntário
com gestantes e mães carentes num lar
espírita. Rosário, mãe de Jeison, afirma que
seus valores mudaram. "Antes, a segurança
financeira era fundamental. Mas me senti
pequena em pensar assim depois da partida do
meu filho. Ajudar é o que me interessa, não
ter o carro do ano", diz.
A caridade é um ponto central do
espiritismo e, segundo especialistas, as
pessoas acabam considerando um pedido da
pessoa que partiu ainda mais urgente. Jakson,
engenheiro e físico até então cético, afirma
que o espírito do filho Jeison demonstrava
preocupação com as crianças - assim como
quando estava vivo - tanto nas cartas quanto
na comunicação que os dois iniciaram. "Anoto
ideias nunca imaginadas que ele me envia por
pensamento. Não ouço sua voz, mas sinto suas
palavras", garante Jakson. Numa dessas
inspirações, Jeison teria dito ao pai: "Por
que não fazer um instituto para ajudar
crianças?" Ele levou adiante a proposta. Em
1996, surgia a ata de fundação do Instituto
Jeison da Criança, com sede no Jardim Novo
Santo Amaro, bairro carente de São Paulo,
que realizou 1.790 atendimentos
odontológicos em 2008 e distribuiu cestas
básicas para famílias cadastradas. Rosário
trabalha lá como dentista, enquanto Jakson
cuida da administração. A despesa mensal de
cerca de R$ 10 mil fica por conta do casal.
O próximo passo é abrir uma sala para aulas
de computação no local. Logo após a fundação
do instituto, Jeison disse em uma carta: "Vocês
estão tecendo o caudal de luz para as
crianças minhas amigas." As palavras
rebuscadas de Jeison são explicadas pelo
espiritismo, para o qual continuar estudando
faz parte da evolução. Rosário diz ainda que
Jeison sempre mostrou interesse por poesias
e seu vocabulário era mais rico do que o da
maioria dos adolescentes.
Segundo a doutrina espírita, o
desencarnado (como são chamadas as pessoas
que morreram) pode levar dias ou anos para
se comunicar. Com o contato rápido do
espírito da mulher, Suzana, o professor de
dança de salão catarinense Edson Coelho
Gaspar, 45 anos, viu seu sofrimento aliviado
e assim pôde recuperar forças, voltar ao
trabalho e cuidar das filhas de 10 e 7 anos.
"Edson, meu amor, obrigada pela luz que
deste. Nossas pérolas precisam de você. Não
se entregue agora. Saudade sim, tristeza não",
dizia a primeira mensagem de Suzana para o
marido, que chegou apenas quatro dias após
sua morte. Ela morreu em decorrência de um
atropelamento em setembro do ano passado.
Espírita há mais de 20 anos, Edson diz
que a comunicação por meio da psicografia dá
a sensação de que a pessoa amada está apenas
longe, mandando notícias. "É como se fosse
uma grande viagem", afirma o professor.
"Mas é uma lapidação dura do espírito
para nossa evolução." Quando lê as
cartas de Suzana para as filhas, as meninas
sorriem. Aos que recebem uma carta
de alguém querido a quem não podem mais
tocar, beijar e abraçar, letras, assinaturas
e até o conteúdo acabam não importando tanto.
Mesmo sem uma indicação forte que
demonstrasse realmente ser a filha Bianca
nas palavras que a mensagem trazia,
Rosemeire - um das pessoas presentes na
sessão de psicografia da médium Marilusa -
não tinha dúvida. "É ela aqui", dizia,
enquanto segurava a carta, a qual olhava com
o carinho com que só uma mãe pode olhar um
filho. Uma alegria que resulta em serenidade,
compreendida apenas por quem sente uma
saudade que ultrapassa a eternidade.